Era outro dia como os outros.
Outro banho como qualquer outro.
No banheiro do hotel, com um box apertado,
feito para pessoas obviamente menores do
que eu.
No quarto de hotel feito para pessoas
menores do que eu. Nesse mundo feito
para pessoas menores do que eu.
A sensação de ser um gigante em diversos
momentos da sua vida. No assento do avião,
na cadeira do cinema, no ônibus.
Vc começa a achar que tem algo errado
com vc mesmo. Que seu corpo tem algum
problema. Como um gigante, na terra de
Liliput.
Vc começa a se angustiar com o fato de
não conseguir roupas boas, pois os habitantes
de Liliput não sabem fazer roupas para
gigantes e, quando as fazem, são variações
toscas de sacos amarrados com linha.
Vc começa a se desesperar querendo ser um
liliputiano. Querendo se encaixar. E
a própria mídia liliputiana que lhe mostra
diversos motivos para ser um gigante o
censura posteriormente por ter dados ouvidos
a eles.
O fato é que fui tomar o banho, naquele
chuveiro de liliputianos. O espelho que
ocupava toda a parede oposta, mostrava o
ser tão patético no box minúsculo. Um
elefante numa casinha de cachorro. Um
ser que, aparentemente, não estava no box,
mas o vestia.
Esse mesmo espelho, de um momento, calou-se.
E o que eu vi ali era eu. Meu corpo assim
como é. A água escorria em fios, cada fio
em seu caminho único, traçando desenhos
intrincados. E cada desenho era belo. Pq
o corpo sob o qual eles corriam era belo.
Era perfeito.
Não era um corpo de liliputiano. Nunca seria.
Mas tinha uma beleza que não era de todo óbvia.
Não era superficial.
Podia melhorar, sim, podia. Poderia ser
melhor cuidado, sim, poderia. Mas ali,
naquele instante, eu o amava daquela forma.
